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Ensino de Jornalismo busca fortalecer ética e crítica contra IA e desinformação

Abej defende formação humana e parcerias para garantir confiança social em meio a novas tecnologias.

23/04/2026 às 12:54
Por: Redação

A emergência da inteligência artificial (IA) e o crescente volume de desinformação no cenário digital impulsionam as instituições de ensino de jornalismo a reforçar a formação de seus estudantes com pilares de crítica e ética. Esta perspectiva foi apresentada pela professora Marluce Zacariotti, da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e presidente da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej).

 

Segundo a especialista, a consolidação da confiança social depende fundamentalmente desses valores em um contexto de grandes desafios. Zacariotti participa do 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), sediado na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), evento que se estende até o dia 24 de abril.

 

Formação Humana e Transversalidade

 

A pesquisadora avalia que o momento atual da profissão e da formação exige profunda reflexão e ações concretas. Marluce Zacariotti enfatiza que a solução não reside apenas em um aperfeiçoamento técnico ou na inclusão de novas disciplinas específicas sobre inteligência artificial ou combate à desinformação nas grades curriculares. Em vez disso, ela defende que esses temas sejam integrados de maneira transversal em todas as matérias dos cursos.

 

“É preciso olhar para a pedagogia do jornalismo com o objetivo de reafirmar o papel clássico da atividade”


A formação, conforme a professora, não pode negligenciar o desenvolvimento da pesquisa jornalística e de metodologias rigorosas para a verificação de dados. Embora as tecnologias possam potencializar essas atividades, é crucial que o aspecto humano do fazer jornalístico seja priorizado. Ela também ressalta a importância de uma visão que vá além dos limites acadêmicos, destacando o papel da extensão universitária para envolver públicos e parcerias colaborativas no processo de aprendizado.

 

“O jornalismo é um curso, por natureza, extensionista”


Durante o evento em Brasília, Marluce Zacariotti salientou que é essencial que os cursos de jornalismo estabeleçam colaborações para fortalecer o papel da extensão no ensino e na aprendizagem. As instituições podem contribuir pedagogicamente para decifrar o “novo universo” informacional, identificando seus contextos econômicos e políticos. “É preciso entender que a gente vive nesse novo universo. Fechar as portas para isso é estar distante também dos nossos alunos”, afirmou.

 

Tecnologia como Ferramenta, Não Vilã

 

A dimensão social é intrínseca à formação do jornalista, e, dentro da perspectiva humana exigida do estudante, a professora argumenta que as tecnologias não devem ser demonizadas. Ela defende que os pesquisadores evitem uma visão "apocalíptica" sobre as inovações tecnológicas.

 

“É preciso olhar e entender que são ferramentas que a gente precisa saber usar da melhor maneira possível. É não negar, mas aproveitar o potencial que elas podem ter para nos ajudar”


A professora também observa que muitos alunos ainda não compreendem plenamente como utilizar essas ferramentas. Por isso, o diálogo constante com os estudantes é fundamental para encontrar soluções eficazes.

 

Consciência Cidadã e o Ecossistema Midiático

 

Marluce Zacariotti enfatiza a necessidade de formar jornalistas com uma forte consciência cidadã. Para ela, esse é um caminho indispensável para o fortalecimento da profissão perante a sociedade. É crucial investir em educação e literacia midiática, visando explicar ao público o funcionamento do ecossistema de comunicação.

 

Nesse contexto, torna-se imprescindível que a população compreenda as distinções entre o trabalho dos jornalistas e o dos influenciadores digitais. A especialista aponta que, frequentemente, as pessoas não conseguem discernir se uma informação é fruto de produção jornalística profissional, com suas abordagens, visões e contextualização temática.

 

Ainda segundo a professora, diante da escalada da desinformação, os professores devem considerar a completa reconfiguração do ecossistema midiático. Os pesquisadores, ela explica, avaliam que as grandes corporações midiáticas atuais são as chamadas big techs (gigantes de tecnologia), e não mais os veículos tradicionais de comunicação.

 

“Se antes a gente falava de impérios midiáticos, agora lidamos com forças um pouco mais ocultas porque a gente está lidando com algoritmos”


Ela complementa que este é um sistema midiático onde cada indivíduo se torna um gerador de dados, caracterizado por ser “digitalizado e plataformizado”. Isso demanda que a crítica e a ética precedam a técnica. Por essa razão, a formação em jornalismo deve preparar os futuros profissionais para enfrentar os desafios de forma responsável, buscando um diferencial, ou seja, “não reproduzindo, mas produzindo com essas possibilidades tecnológicas”.

 

O Valor da Presença e o Cenário Profissional

 

A pesquisadora também destaca a importância de priorizar aspectos presenciais na formação jornalística. Ela argumenta que o jornalismo é uma atividade inerentemente coletiva, que prospera com a troca de ideias e experiências, tornando difícil imaginá-lo em um formato totalmente online.

 

Analogamente, no ambiente profissional, as redações coletivas presenciais são percebidas como mais ricas em discussões do que o trabalho virtual. Esta dinâmica, segundo Marluce Zacariotti, “afeta, inclusive, o perfil do próprio jornalista”, que se encontra cada vez mais restrito à redação e menos presente nas ruas, uma situação que também está conectada às condições de trabalho precarizadas.

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