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Tartarugas-cabeçudas surpreendem pesquisadores ao retornar à Baía de Guanabara

Presença inesperada de espécie oceânica na Baía de Guanabara intriga cientistas e pescadores, revelando resiliência ambiental da região

25/04/2026 às 16:45
Por: Redação

A Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, tem sido palco de um fenômeno que intriga pesquisadores e pescadores artesanais: o reaparecimento de tartarugas-cabeçudas (Caretta caretta). Esta espécie, que se encontra ameaçada de extinção e possui hábitos predominantemente oceânicos, está sendo observada com maior frequência em águas internas da baía, levantando novas questões sobre seu comportamento.

 

Os avistamentos mais consistentes desses animais no interior da baía começaram a ser registrados a partir de 2024 pelo Projeto Aruanã, uma iniciativa dedicada à preservação de tartarugas marinhas no litoral fluminense. No dia 18 de abril, uma colaboração entre pescadores e cientistas possibilitou a marcação de duas tartarugas que entraram e permaneceram em currais de pesca na região, um evento considerado inédito do ponto de vista científico e que abre novas perspectivas para estudos.

 

Novos padrões de comportamento da espécie

 

A tartaruga-cabeçuda é conhecida por sua preferência por ambientes oceânicos, onde se alimenta principalmente de crustáceos como camarões e lagostas. A constância de sua presença em um estuário como a Baía de Guanabara ainda é objeto de investigação.

 

Larissa Araujo, bióloga do Projeto Aruanã, explicou que, embora existissem relatos pontuais de pescadores sobre a presença rara da espécie no passado, não havia registros sistemáticos. Ela destacou que, a partir de julho de 2025, houve um aumento nos registros e, consequentemente, na entrada desses animais nos currais de pesca.

 

A hipótese principal para essa mudança de comportamento é a busca por alimento abundante.

 

“Essa espécie tem hábitos mais oceânicos do que costeiros ou estuarinos, mas podem estar encontrando no interior da Baía de Guanabara uma farta disponibilidade de alimentos”

 

Para aprofundar a compreensão desse fenômeno, o Projeto Aruanã planeja uma nova fase de monitoramento que incluirá o uso de transmissores via satélite. O objetivo é mapear as rotas que as tartarugas utilizam, determinar o tempo de permanência na baía e identificar suas áreas de preferência.

 

Apesar da possível oferta de alimento, Larissa Araujo ressaltou que a Baía de Guanabara impõe sérios riscos à sobrevivência das tartarugas. Entre as ameaças, ela citou o contato com águas poluídas, colisões com embarcações, a ingestão de resíduos sólidos e a captura acidental por artes de pesca.

 

Resiliência ambiental em foco

 

Suzana Guimarães, bióloga e coordenadora-geral do Projeto Aruanã, enfatizou que ainda não é possível estabelecer uma ligação direta entre o reaparecimento das tartarugas e uma melhoria na qualidade ambiental da baía, devido às ações limitadas de despoluição e monitoramento das espécies.

 

“Não é possível afirmar se há relação direta entre uma melhora na qualidade ambiental da Baía de Guanabara e a ocorrência de tartarugas marinhas, uma vez que ainda são limitadas as ações efetivas voltadas à despoluição e ao monitoramento dessas espécies”

 

Contudo, Suzana considera que a presença das tartarugas demonstra a notável capacidade de recuperação do ecossistema local.

 

“Esses registros são importantes para mostrar que a Baía de Guanabara, apesar da grande poluição ainda presente, é resiliente e permanece abrigando uma enorme biodiversidade”

 

O programa de monitoramento atual conta com o apoio fundamental de pescadores e moradores, que reportam avistamentos por meio de redes sociais e outros canais de comunicação. Quando os animais ficam retidos em currais de pesca, equipes especializadas são acionadas para realizar a marcação, coletar dados biométricos e avaliar a saúde das tartarugas antes de sua soltura.

 

Suzana Guimarães destacou que a informação sobre a ocorrência frequente da espécie na Baía de Guanabara é um conhecimento recente para os pesquisadores, e o acesso a esses dados tem sido viabilizado pela colaboração dos pescadores artesanais.

 

O caso da tartaruga Jorge em 2025

 

A questão da presença de tartarugas na Baía de Guanabara ganhou destaque em 2025, com o caso de Jorge, uma tartaruga-cabeçuda macho que passou cerca de 40 anos em cativeiro na Argentina. Após um processo de reabilitação, Jorge foi devolvido ao mar e, para surpresa dos cientistas, entrou na Baía de Guanabara poucos meses depois de ser solto, enquanto era monitorado por satélite.

 

A história de Jorge continua a inspirar. Suzana comentou que os pescadores da região ainda falam sobre ele e tentam encontrá-lo, o que contribui para fortalecer o senso de conservação e estimular o interesse da população pelas questões ambientais.

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