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Brasil negocia redução no tempo de voo entre Natal e Senegal

Governo brasileiro busca facilitar comércio e turismo ao discutir voos mais curtos entre Brasil e Senegal

22/04/2026 às 13:32
Por: Redação

O governo brasileiro está empenhado em encurtar o tempo de viagem aérea entre o Brasil e Dacar, capital do Senegal, situada na Costa Oeste africana. Essa alteração visa facilitar o fluxo de turistas e ampliar as possibilidades comerciais não apenas com o Senegal, mas também com países vizinhos do continente africano e da América Latina.

 

No momento, não existem voos diretos ligando os dois países. Muitas vezes, passageiros brasileiros e senegaleses acabam passando por Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, antes de chegarem ao destino final, o que resulta em trajetos significativamente mais longos. Outras alternativas disponíveis envolvem a utilização de hubs em aeroportos localizados na Europa ou em cidades africanas distantes da América do Sul.

 

A distância em linha reta entre Natal, no Rio Grande do Norte, e o Senegal é de 2.900 quilômetros. Para efeito de comparação, a viagem de Natal a Lisboa é quase o dobro desse percurso, enquanto para Dubai a distância chega a ser quase quatro vezes maior.

 

A iniciativa de buscar a redução do tempo de voo foi confirmada pela embaixadora do Brasil no Senegal, Daniella Xavier. De acordo com a diplomata, a aproximação aérea entre os dois países é fundamental para estimular tanto o turismo quanto o comércio bilateral.

 

“Temos que continuar a trabalhar nesse sentido, pois não é lógico que tenhamos que ir à Europa para vencer menos de 3 mil km! Imaginem a redução dos tempos de voo e nos custos também em benefício dos demais países da África Ocidental, da América Latina e do Caribe”, afirmou.


 

A representante participou do Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado em uma cidade de aproximadamente 4 milhões de habitantes, nos dias 20 e 21.

 

Desafios para o crescimento do turismo e comércio

Conforme avaliação de Daniella Xavier, existe um ciclo dificultando o avanço do turismo e das trocas comerciais: a falta de conexões aéreas limita a escala dessas atividades, e, ao mesmo tempo, a ausência de escala desestimula a criação de novas rotas.

 

A embaixadora relatou encontros recentes com o ministro das Infraestruturas e dos Transportes do Senegal, Yankhoba Diémé, assim como com dirigentes da companhia aérea estatal Air Senegal. Segundo ela, o ideal seria articular parcerias operacionais entre empresas privadas brasileiras e a Air Senegal ou ainda com empresas de outros países africanos, como Marrocos, Etiópia e Turquia, para o estabelecimento de acordos do tipo codeshare – prática em que companhias vendem passagens para voos operados umas pelas outras.

 

Histórico de relações entre Brasil e Senegal

Daniella Xavier ressalta que a ligação entre Brasil e Senegal é marcada por uma relação que considera excelente, remontando à época da independência do país africano, ocorrida no começo da década de 1960. A diplomata destaca os vínculos históricos entre as nações, cujas origens remontam ao tráfico de pessoas escravizadas. No Senegal está situada a Ilha de Gorée, reconhecida como um dos principais pontos de embarque de africanos escravizados para as Américas.

 

A presença diplomática brasileira em Dacar foi estabelecida em 1961, e, em 1963, ocorreu a abertura da embaixada senegalesa em Brasília, a única representação do Senegal na América do Sul.

 

Destaques do comércio bilateral e investimentos

No ano de 2025, o intercâmbio comercial entre Brasil e Senegal, país com população próxima de 19 milhões de habitantes, somou 386,1 milhões de dólares. O saldo foi favorável ao Brasil em 370,8 milhões de dólares, o que indica que as exportações brasileiras superam amplamente as importações provenientes do Senegal.

 

“O Senegal ainda exporta pouco para o Brasil. Poderia, por exemplo, investir na exportação de amendoim e derivados das flores do nenúfar [lírios-d’água], como produtos gourmet, assim como tecidos, produtos artesanais, entre outros”, opinou a embaixadora.


 

A diplomata reforça a perspectiva de crescimento nas relações comerciais, mencionando que, no ano anterior, uma missão de 50 empresários brasileiros visitou o Senegal. Ela também citou como exemplo de investimento o anúncio, em outubro do ano passado, da criação da primeira indústria de genética agrícola no Senegal, com previsão de produzir 30 milhões de ovos e 400 mil aves reprodutoras, fruto de parceria entre a empresa brasileira West Aves e parceiros locais africanos. O aporte inicial será de 20 milhões de dólares, com previsão de geração de 300 empregos diretos e 1.000 indiretos, além da transferência de tecnologia para o país africano.

 

“Caso bem sucedido, o projeto poderá permitir a autossuficiência total do país na produção de aves e a redução de 20% de seus custos para o consumidor final”, destacou a embaixadora.


 

Outras iniciativas em discussão preveem a cooperação do Brasil com o Senegal em tecnologias para o setor agropecuário, programas de alimentação escolar e ações relacionadas à defesa.

 

Relações multilaterais e coordenação política internacional

Segundo Daniella Xavier, o relacionamento entre Brasil e Senegal ganhou ritmo em meio a um cenário global considerado instável. Ela defende o fortalecimento da coordenação política entre países que compartilham posições semelhantes em questões multilaterais e buscam alternativas para ampliar o comércio.

 

Um exemplo citado pela diplomata é a defesa, por ambos os países, de reformas em instituições internacionais, especialmente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Atualmente, apenas Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França possuem assentos permanentes e direito a veto no órgão. Entre as atribuições do conselho estão a autorização de sanções internacionais e decisões sobre intervenções militares.

 

Perspectiva senegalesa e atuação regional

Durante o Fórum Internacional de Dacar, a embaixadora do Senegal no Brasil, Marie Gnama Bassene, afirmou que Senegal desempenha papel relevante na construção de confiança, no fortalecimento da cooperação e na prevenção de conflitos por meio do diálogo. O objetivo, segundo ela, é promover e defender a paz regional e continental.

 

Marie Gnama Bassene ressaltou a tradição do Senegal em contribuir de modo efetivo para operações de paz da ONU e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países. Ela também mencionou semelhanças entre o Senegal e o Brasil, especialmente em relação ao compromisso com o multilateralismo, a diplomacia, a paz, a segurança e a busca por soluções pacíficas para conflitos.

 

“Ao observar a situação do Brasil e suas relações com seus vizinhos na América do Sul, não posso deixar de perceber muitas semelhanças com o Senegal”, declarou a diplomata.


 

O Senegal presidirá, entre 2026 e 2030, a Comissão da Cedeao, órgão executivo da comunidade regional. Participa ainda da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), que reúne mais de 20 países, na maioria africanos, com foco na manutenção do Atlântico Sul afastado de conflitos armados e disputas geopolíticas. Recentemente, o Brasil assumiu a presidência desse grupo, em evento realizado no Rio de Janeiro.

 

A embaixadora senegalesa classificou a relação com o Brasil como forte, estável e duradoura, marcada por quase 65 anos de laços diplomáticos e por visões próximas em diversos temas internacionais.

 

Brasil e segurança na África

O Fórum Internacional de Dacar, embora tenha como foco principal o continente africano, recebeu representantes de países de outras regiões, reunindo chefes de Estado, ministros e diplomatas de 38 nações, sendo 18 delas africanas.

 

Ao final do evento, o ministro da Integração Africana, dos Negócios Estrangeiros e dos Senegaleses no Exterior, Cheikh Niang, foi questionado sobre a contribuição que o Brasil, país de grande herança africana, poderia oferecer para a paz e a segurança na África. Ele respondeu:

 

“Acho que o simples fato de participar de uma discussão, apresentar ideias e fazer propostas já é útil”.


 

O ministro complementou afirmando que, sob essa perspectiva, a participação do Brasil é não apenas desejada, mas também considerada de grande valor para a qualidade do trabalho desenvolvido no âmbito do fórum.

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