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Lula defende coerência progressista e alerta sobre extrema-direita

Presidente brasileiro, em Barcelona, convoca ativistas a não temerem a esquerda e critica o neoliberalismo

18/04/2026 às 20:32
Por: Redação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcou presença na primeira edição do evento Mobilização Progressista Global (MPG), realizado na tarde de sábado (18) em Barcelona, na Espanha. Dirigindo-se a uma plateia de mais de 5 mil pessoas, que incluía chefes de Estado, o líder brasileiro enfatizou a necessidade de ativistas e organizações de esquerda de todo o mundo defenderem a democracia com justiça social, ao mesmo tempo em que combatem o avanço das forças autoritárias de extrema-direita. Durante seu discurso, Lula encorajou os presentes a não se envergonharem de se identificarem como progressistas ou de esquerda no cenário global atual.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade", declarou o presidente.


 

Ao analisar os avanços conquistados pelo campo progressista em favor de diversos grupos sociais, como trabalhadores, mulheres, a população negra e a comunidade LGBTQIA+, o presidente ponderou que a esquerda falhou em transcender o pensamento econômico predominante. Essa inabilidade, segundo ele, abriu espaço para que forças reacionárias ganhassem terreno na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.


 

O mandatário brasileiro destacou que a coerência deve ser o princípio fundamental dos progressistas. Ele ressaltou a importância de não se eleger com um programa e, posteriormente, implementar outro, advertindo contra a traição da confiança popular. Lula afirmou que, embora uma parte da população possa não se considerar progressista, ela aspira às propostas do movimento, como acesso a alimentação adequada, moradia digna, educação de qualidade, serviços de saúde eficientes, uma política climática responsável e um ambiente limpo e saudável. A população também busca trabalho digno, jornada equilibrada e salários que garantam uma vida confortável.

 

Ascensão da Extrema-Direita

 

Lula apontou que a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo. Ele explicou que essa força política canalizou a frustração popular por meio da propagação de inverdades e do discurso de ódio. As principais vítimas dessa retórica, conforme o presidente, são as mulheres, os negros, a população LGBTQIA+ e os imigrantes, ou seja, os segmentos mais vulneráveis da sociedade.

 

Mais cedo, também em Barcelona, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outras lideranças internacionais. Essa iniciativa, lançada em 2024, envolve os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. O encontro em Barcelona, organizado pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi, do Uruguai; Gustavo Petro, da Colômbia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; Claudia Sheinbaum, do México; e do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric. Diante dos ativistas progressistas, Lula salientou a necessidade de responsabilizar os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza global pela atual crise socioeconômica. Ele afirmou que esses indivíduos promovem a "falácia da meritocracia" e impedem a ascensão de outros, pagam poucos ou nenhum imposto, exploram trabalhadores, devastam a natureza e manipulam algoritmos. Lula concluiu que a desigualdade não é um mero acaso, mas uma escolha política, e que o lema progressista deve ser sempre estar ao lado do povo, escolhendo a igualdade.

 

Críticas aos "Senhores da Guerra"

 

O presidente brasileiro reiterou suas críticas aos líderes dos países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele condenou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, segundo ele, poderiam erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir o acesso universal à saúde.

 

Lula destacou que o Sul Global arca com as consequências de conflitos que não iniciou e de alterações climáticas que não provocou. Ele descreveu essa região como sendo tratada como "quintal das grandes potências", sufocada por tarifas abusivas e dívidas impagáveis, e novamente vista como mera fornecedora de matérias-primas. Ser progressista no cenário internacional, para Lula, implica defender um multilateralismo renovado, priorizar a paz sobre a força, combater a fome e proteger o meio ambiente, e restaurar a credibilidade da Organização das Nações Unidas (ONU), que foi corroída pela irresponsabilidade de seus membros permanentes.

 

Em outro ponto de sua fala, Lula alertou que a ameaça da extrema-direita transcende a retórica, sendo uma realidade palpável. Ele citou o Brasil como exemplo, onde, segundo ele, a extrema-direita planejou um golpe de Estado e orquestrou uma conspiração que envolveria tanques nas ruas e o assassinato do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral. Lula mencionou que o papa Leão XIV teria afirmado que a democracia corre o risco de se tornar uma fachada para o domínio das elites econômicas e tecnológicas, enfatizando que o papel dos progressistas é desmascarar essas forças que, embora afirmem estar com o povo, governam para os mais ricos.

 

O presidente também sublinhou que a democracia não é um fim em si mesma, mas precisa ser constantemente reafirmada ao melhorar concretamente a vida das pessoas, para que não perca sua credibilidade. Ele exemplificou a ausência de democracia em situações como um pai sem recursos para alimentar a família, um neto que perde o avô na fila de um hospital, uma mãe exausta que não consegue beijar os filhos ao fim do dia, a discriminação racial ou a morte de uma mulher por ser mulher. Lula concluiu que é imperativo substituir o desânimo pelo sonho e o ódio pela esperança.

 

Próximos Compromissos na Europa

 

Após os compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição prestará homenagem ao Brasil. Ainda na Alemanha, o presidente brasileiro terá um encontro agendado com o chanceler Friedrich Merz. A viagem presidencial pela Europa será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, Lula se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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