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Unesco aponta relevância mundial de áreas protegidas para clima e biodiversidade

Relatório inédito da Unesco mostra que áreas protegidas são essenciais para o clima, abrigo de biodiversidade e de culturas, mas sofrem pressões ambientais crescentes.

21/04/2026 às 17:35
Por: Redação

Um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Paris, nesta terça-feira, 21, enfatizou a significativa contribuição dos sítios protegidos sob sua chancela tanto para as populações quanto para a preservação do meio ambiente em escala global.

 

No caso brasileiro, integram essa lista de áreas de proteção o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, que foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, realizada em julho de 2024, em Nova Délhi, na Índia, e o Parque Nacional de Iguaçu, que já havia sido inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da organização em 1986.

 

Segundo a Unesco, o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses abriga uma biodiversidade notável, onde se destacam mais de 2.000 tipos de plantas, em torno de 400 espécies de aves e até 80 espécies de mamíferos, além de uma grande quantidade de invertebrados. Estimativas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima apontam que o parque é habitat de quatro espécies ameaçadas: o guará (Eudocimus ruber), a lontra-neotropical (Lontra longicaudis), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus) e o peixe-boi-marinho (Trichechus manatus). Ainda conforme o órgão, a região abriga cerca de 133 espécies vegetais, 112 espécies de aves e, pelo menos, 42 espécies de répteis.

 

Estabilidade em meio ao declínio global da fauna

Enquanto as populações de animais selvagens ao redor do planeta sofreram uma diminuição de 73% desde 1970, a situação nas áreas protegidas pela Unesco permaneceu, segundo o relatório, relativamente estável. Entre esses sítios, aproximadamente um quarto estão situados em territórios pertencentes a povos indígenas, sendo que mais de mil idiomas distintos foram registrados nessas regiões.

 

O estudo intitulado "People and Nature in Unesco Sites: Global and Local Contributions" aborda, pela primeira vez, uma análise abrangente de todas as categorias de áreas da Unesco, incluindo Sítios do Patrimônio Mundial, Reservas da Biosfera e Geoparques Mundiais. Ao todo, são mais de 2.260 sítios, que juntos somam uma área superior a 13 milhões de quilômetros quadrados — maior do que a soma dos territórios da China e da Índia.

 

Resultados positivos e valorização estratégica

De acordo com o diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, as áreas sob proteção da entidade geram efeitos positivos tanto para as comunidades quanto para os ecossistemas.

 

"Nesses territórios, as comunidades prosperam, o patrimônio da humanidade perdura e a biodiversidade é preservada, enquanto se degrada em outros locais. O relatório mensura o valor global e as contribuições desses sítios e revela o que podemos perder se eles não forem priorizados."

 

Para El-Enany, a publicação representa um chamado urgente para intensificar os esforços, reconhecendo tais áreas como instrumentos essenciais no combate às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade. Ele defende investimentos imediatos na proteção de ecossistemas, culturas e estilos de vida, visando as futuras gerações.

 

Desafios ambientais e ameaças crescentes

O levantamento mostra que os sítios sob tutela da Unesco concentram mais de 60% de todas as espécies já mapeadas no planeta, sendo que cerca de 40% dessas não ocorrem em nenhum outro local do mundo. Além disso, esses territórios acumulam cerca de 240 gigatoneladas de carbono, o que equivale a quase duas décadas de emissões globais atuais, caso esse carbono fosse liberado na atmosfera.

 

Para dimensionar o volume, cada gigatonelada corresponde a um bilhão de toneladas. Apenas as florestas presentes nos sítios da Unesco são responsáveis, anualmente, por cerca de 15% do carbono absorvido por florestas em todo o globo.

 

Apesar do papel fundamental dessas áreas, o relatório alerta que quase 90% delas enfrentam elevados índices de estresse ambiental, com riscos relacionados ao clima aumentando 40% apenas na última década. Projeções apontam que, caso medidas mais robustas não sejam adotadas, mais de um em cada quatro desses sítios poderá atingir pontos críticos de ruptura até 2050, acarretando alterações irreversíveis, como a extinção de geleiras, colapso de recifes de coral, deslocamento de espécies, intensificação da escassez hídrica e transformação de florestas em fontes de carbono.

 

Interação entre comunidades e natureza

O relatório destaca a forte integração entre a natureza e as populações que habitam os sítios da Unesco, onde vivem cerca de 900 milhões de pessoas — aproximadamente 10% da população mundial.

 

"Mais de mil línguas estão documentadas nos sítios da Unesco, e ao menos 25% deles abrangem terras e territórios de povos indígenas."

 

Em localidades da África, Caribe e América Latina, esse percentual sobe para quase 50%. O estudo também aponta que a produção econômica gerada dentro desses sítios e em suas adjacências representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

 

Projeções do levantamento indicam que ações implementadas no presente podem reduzir, de forma significativa, riscos futuros para essas áreas. Por exemplo, cada grau Celsius de aquecimento global que seja evitado pode cortar pela metade o número de sítios expostos a grandes perturbações até o final do século.

 

Outro ponto ressaltado é o potencial desses espaços nas estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas, ainda pouco explorado. Enquanto 80% dos planos nacionais de biodiversidade incluem os sítios da Unesco, apenas 5% dos planos nacionais voltados ao clima contemplam essas áreas.

 

A Unesco recomenda a intensificação das ações em quatro eixos principais: restauração de ecossistemas para promover resiliência; incentivo ao desenvolvimento sustentável por meio da cooperação entre fronteiras; maior integração dos sítios nos planos climáticos mundiais; e adoção de governança mais participativa, envolvendo povos indígenas e comunidades locais.

 

Exemplos de conservação e perspectivas

Segundo a Unesco, a convivência equilibrada entre seres humanos e natureza é evidenciada nessas áreas. O relatório cita desde a estabilização de populações de animais selvagens — contrastando com o cenário global de declínio — até iniciativas bem-sucedidas como a recuperação dos gorilas-das-montanhas em regiões antes afetadas por conflitos armados, apontando que tais resultados são possíveis quando a preservação é contínua e respaldada pelas comunidades locais.

 

O estudo contou com a colaboração de mais de 20 instituições de pesquisa reconhecidas internacionalmente e enfatiza a importância de aumentar a ambição em torno do desenvolvimento conjunto entre populações humanas e meio ambiente. O texto reforça que os sítios da Unesco devem ser vistos não só como áreas de conservação, mas como ativos estratégicos diante dos desafios ambientais e sociais no mundo todo.

 

"Investir na sua proteção hoje significa salvaguardar, para as gerações futuras, ecossistemas insubstituíveis, culturas vivas e os meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas."

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