Levantamento realizado a partir do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) revela que, entre os 62 empresários nomeados como financiadores da ditadura militar, pelo menos 40 têm ascendência ligada a senhores de escravos. A pesquisa que permitiu reconstituir as árvores genealógicas desses nomes utilizou certidões de nascimento, registros de óbito, livros de batismo e outros documentos históricos disponíveis em plataformas como o Family Search, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
O documento da CNV detalha que empresas contribuíram de formas diversas para o regime instaurado em 1964. Entre os sobrenomes identificados estão Guinle de Paula Machado, antigos proprietários do Porto de Santos; Batista Figueiredo, família do último general-presidente do regime e de um vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; Beltrão, grupo de Pernambuco com membros como Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento do governo Costa e Silva; e Vidigal, à frente do Banco Mercantil e da Cobrasma, Companhia Brasileira de Material Ferroviário.
O professor Ricardo Oliveira, responsável pelo Núcleo de Estudos Paranaenses e pesquisador de genealogia do poder, afirma que a elite dominante do Brasil carrega raízes profundas do período colonial em todas as regiões do país. Segundo Oliveira, ao retroceder algumas gerações, é possível encontrar avós e bisavós de pessoas nascidas na década de 1950 que já integravam o grupo dos grandes proprietários de escravos de suas regiões.
"Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões."
As ligações genealógicas só foram confirmadas para empresários cujos antepassados puderam ser rastreados de maneira documental. Essa pesquisa inédita foi feita dentro do episódio "Como Nossos Pais", do podcast Perdas e Danos, que examina o apoio empresarial ao regime militar brasileiro.
De acordo com Edson Teles, professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), o sistema econômico implementado pela ditadura foi marcado pela "lógica da extração". O ato de extrair, considerado por ele como central e muitas vezes exclusivo, se relacionava tanto a recursos naturais quanto ao trabalho humano.
“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”
Teles estabelece um paralelo entre o modelo de exploração e a tradição escravista, com uso intensivo dos corpos dos trabalhadores sem respeito a direitos ou dignidade. Para ele, situações análogas à escravidão, violações diretas de direitos e outras formas de violência faziam parte desse processo de extração dentro do regime.
O pesquisador liderou o maior estudo nacional conhecido sobre as relações entre ditadura e empresas nacionais e estrangeiras. Ele afirma que o elo entre poder econômico e o regime de opressão tinha por alvo primordial os trabalhadores organizados, destacando que, logo após o golpe de 1964, cerca de 20 mil pessoas foram presas em apenas um mês, a maioria delas sindicalizadas.
“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados.”
Para Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a política salarial da ditadura agravou a situação trabalhista. Dois anos após o golpe, o poder de compra do salário mínimo foi reduzido em 50%, devido a mudanças na política de indexação frente à inflação elevada.
O IBGE aponta que a desigualdade de renda também cresceu nesse período: em 1960, os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional, e em 1972, esse percentual subiu para quase 40%.
A continuidade de famílias tradicionais nos postos de poder ilustra o cenário de baixa mobilidade social no país. Segundo estudo da OCDE, no Brasil são necessárias nove gerações — ou aproximadamente 300 anos — para uma pessoa nascida pobre alcançar a classe média. Brasil, Colômbia e África do Sul estão entre os países com maior dificuldade de ascensão social.
“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias.”
A família Bueno Vidigal foi investigada pelo podcast Perdas e Danos devido à sua atuação destacada durante o regime militar, à presença em múltiplos setores — indústria, serviços e finanças — e por ter exercido papel importante em diferentes frentes de apoio ao regime, do golpe ao financiamento de práticas de repressão.
No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, empresa de produção de trilhos e trens, e o Banco Mercantil, que já foi o maior banco privado do Brasil. A empresa foi herdada por seu filho, Luís Eulálio Bueno Vidigal, e posteriormente pelo neto, Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil ficou sob presidência de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte em 2001, quando o banco foi adquirido pelo Bradesco.
Documentos do Ministério do Trabalho analisados pela historiadora Cláudia Moraes de Souza, professora da Unifesp, mostram que a Cobrasma esteve envolvida em denúncias de condições de trabalho consideradas semelhantes à escravidão. Segundo ela, apesar da dimensão da companhia, faltavam instalações sanitárias suficientes, refeitório, equipamentos de proteção e até água potável para os funcionários, que almoçavam sentados na calçada.
“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador.”
Nesse contexto, a Cobrasma se tornou epicentro de um dos maiores movimentos grevistas do país durante o regime militar. A greve de Osasco, em 1968, foi marcada pela presença do Exército dentro da fábrica, com empresários acionando forças militares para reprimir operários.
“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica.”
O episódio resultou na prisão de cerca de 400 trabalhadores. O movimento influenciou a promulgação do Ato Institucional número 5 (AI-5), cinco meses depois, endurecendo ainda mais o regime ao fechar o Congresso Nacional, cassar mandatos, impor censura à imprensa e suprimir a concessão de habeas corpus.
Logo após o AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes (Oban), considerada embrião do sistema DOI-CODI, que atuou em dez capitais a partir de 1970 com foco em repressão e tortura. Empresas nacionais e multinacionais, incluindo o Banco Mercantil, participaram do financiamento dessas estruturas. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal estava entre os sócios das companhias financiadoras.
O jornalista Ivan Seixas, que foi preso e torturado com o pai no DOI-CODI de São Paulo aos 16 anos, relata que existia uma espécie de sistema de recompensas por capturas de opositores, patrocinado por empresários. Havia valores estipulados para cada pessoa capturada, como no caso do capitão Carlos Lamarca. Na ocasião, a captura valia inicialmente 750 mil dólares e, um ano depois, esse valor dobrou para 1,5 milhão de dólares. O próprio Seixas foi informado pelo carcereiro de que sua prisão rendeu ao agente 300 dólares.
Segundo Seixas, essa prática fortaleceu os setores mais radicais das Forças Armadas e prolongou o período de autoritarismo.
A família Bueno Vidigal também esteve à frente do Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), criado para adaptar indústrias à produção de equipamentos bélicos. Há acusações de que a Cobrasma transformou veículos da Polícia Militar em blindados para reprimir manifestações populares.
Como contrapartida ao apoio ao regime, empresários foram contemplados com incentivos fiscais, contratos governamentais e empréstimos bilionários. No auge, a Cobrasma chegou a registrar faturamento anual de aproximadamente 470 milhões de dólares. De acordo com Edson Teles, esses benefícios eram concedidos por bancos estatais como o BNDE (atual BNDES), frequentemente em situações que envolviam deslocamento de forças policiais para áreas de interesse empresarial, como reservas indígenas, com transferências de recursos superiores às condições de mercado.
Gastão Vidigal nasceu em 1889, em São Paulo, descendente de uma família do Nordeste e casado com Maria Amélia Pontes Bueno, integrante de uma tradicional linhagem paulista. Durante a investigação, foram encontrados registros em jornais sergipanos do século XIX comprovando a participação da família Vidigal no comércio de escravos, como um anúncio publicado por Antônio Pedro Vidigal em 1853, manifestando interesse na compra de pessoas escravizadas.
Outro episódio, noticiado em 1882 pelo jornal O Libertador, relatou a tentativa de uma mulher de comprar a liberdade da própria filha e do neto, já nascido livre, cujo valor foi majorado por avaliadores, incluindo um membro da família Vidigal.
Pelo ramo materno, a família Bueno também teve envolvimento com a escravidão. Maria Amélia Bueno é descendente de Amador Bueno da Ribeira, capitão-mor da Capitania de São Vicente. No fim do século XIX, Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, ofereceu uma fazenda de café com 75 escravizados como garantia de empréstimo junto ao Banco do Brasil.
O nome de Gastão Vidigal hoje está presente em endereços de todo o país, incluindo avenidas, ruas, travessas, praças, um aeroporto e uma cidade no interior paulista. O professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, considera que tais denominações funcionam como marcos simbólicos da elite, perpetuando desigualdades e agregando capital simbólico às famílias, ao passo que descendentes de pessoas escravizadas tiveram suas referências de memória sistematicamente apagadas.
“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências.”
Monteiro ressalta ainda que, para pessoas historicamente escravizadas, a destruição da memória dos antepassados foi um dos principais mecanismos de opressão, dificultando o acesso a referências positivas.
A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, que presidiu o Banco Mercantil, morreu em 2001 aos 82 anos, sendo considerado um dos homens mais ricos do país. Em 2019, a família voltou à atenção pública quando outro banco da linhagem, o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão, foi investigado pela Operação Lava Jato, acusado de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht.
O Banco Paulista, procurado para comentar sobre a origem escravista da fortuna familiar, o apoio à ditadura e as acusações da Lava Jato, respondeu apenas que o presidente Guti Vidigal não é herdeiro direto do financiador da OBAN nem possui relação com a Cobrasma.
Foram feitas perguntas idênticas a Luís Eulálio Vidigal, da direção da Cobrasma, incluindo questionamentos sobre a ocupação militar da fábrica em 1968, o desenvolvimento do grupo durante o regime e o fechamento da empresa após a reabertura política. Não houve retorno para nenhuma das indagações enviadas.