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Empresas portuguesas adotam semana de trabalho de quatro dias e relatam ganhos

Estudo mostra que 52% das companhias que testaram a semana de quatro dias mantiveram o modelo e relataram aumento de receita.

29/04/2026 às 15:29
Por: Redação

Em Portugal, 41 empresas de diversos setores e portes implementaram, por decisão própria, a jornada semanal de quatro dias de trabalho seguidos por três dias de descanso, conhecida como modelo 4x3. As experiências dessas organizações foram detalhadas pelo professor português Pedro Gomes, da Universidade de Londres, no livro intitulado Sexta-Feira é o Novo Sábado.

 

Segundo o pesquisador da escola de negócios da instituição londrina, tornar a semana de trabalho mais curta é não só possível, como pode apresentar impactos positivos para toda a sociedade e a economia em geral. O especialista defende que essa redução de jornada pode ser um fator determinante para revitalizar a economia.

 

Pedro Gomes sustenta que o aumento da produtividade das empresas, um resultado obtido quando produzem mais em menos tempo, pode compensar os custos gerados pela redução do tempo de trabalho. Ele afirma:

 

“O que, historicamente acontece, em todas as reduções do tempo de trabalho, é que há um aumento da produtividade por hora. Existem melhoras, na forma como estamos a produzir, que compensam em grande medida, do ponto de vista das empresas, essa redução do tempo de trabalho.”

 

Empresas mantêm jornada reduzida após testes

 

O levantamento do acadêmico analisou a adoção voluntária da semana de quatro dias de trabalho em empresas portuguesas que, ao todo, empregam mais de mil pessoas. Do total dessas organizações, 52% decidiram manter o novo regime de trabalho, enquanto 23% optaram por manter escala reduzida, porém em formato menos rígido, e apenas 19% retornaram ao modelo tradicional de cinco dias trabalhados para dois de folga.

 

A pesquisa revelou que para mais de 90% dessas companhias a mudança na escala não trouxe custos financeiros. Entre elas, 86% reportaram aumento de receita em relação ao ano anterior à adoção do 4x3, ao passo que 14% registraram queda. Além disso, cerca de 70% concordaram que houve melhorias nos processos internos após a alteração do regime de trabalho.

 

Pedro Gomes ressalta que o implemento desse novo formato é uma decisão legítima de gestão, capaz de gerar vantagens operacionais, como ambiente de trabalho aprimorado, menor número de faltas e maior atratividade nas contratações. No entanto, ele destaca a necessidade de profunda reorganização interna para que o modelo seja bem-sucedido, ressaltando que a diminuição do tempo das reuniões foi a mudança mais recorrente entre as empresas participantes do estudo.

 

Reflexos econômicos do tempo livre ampliado

 

O pesquisador destaca que o tempo adicional de descanso também representa um estímulo econômico, impulsionando setores como lazer e entretenimento, com efeito positivo para toda a cadeia produtiva. Ele afirma:

 

“Os trabalhadores também são consumidores. Eles também são inovadores, também são cidadãos, têm estudantes e, portanto, o que eles fazem no tempo livre tem um impacto econômico.”

 

Pedro Gomes cita o caso do industrial norte-americano Henry Ford, que em 1926 instituiu na Ford a jornada semanal de 40 horas, consolidando o descanso de dois dias. Após essa mudança, cerca de 70% dos trabalhadores passaram a frequentar cinemas, o que colaborou para consolidar Hollywood como uma das maiores indústrias dos Estados Unidos, além de beneficiar empresas dos ramos de esportes, música, literatura, cultura e hotelaria.

 

O economista também menciona a experiência da China, onde, em 1995, parte dos trabalhadores passou a usufruir do final de semana de dois dias, o que impulsionou o turismo doméstico, tornando-o o maior do mundo naquele período. Ele avalia que o Brasil possui amplo potencial para o turismo e poderia se beneficiar de medida semelhante.

 

Em Portugal, vale lembrar, a jornada semanal foi reduzida de 44 para 40 horas em 1996.

 

Redução das faltas e rotatividade

 

Outro aspecto apontado pelo estudo é a diminuição das ausências ao trabalho e da rotatividade dos empregados após a adoção do novo formato. Isso facilita a conciliação entre compromissos profissionais e familiares, com efeitos especialmente positivos para as mulheres. Pedro Gomes observa que a alta rotatividade e o excesso de faltas trazem custos significativos às empresas e que, com menos horas de trabalho, há tendência de diminuição desses problemas.

 

Reorganização do comércio em relação à escala

 

Sobre o funcionamento do comércio, Gomes relata que parte das empresas analisadas conseguiu manter as lojas abertas mesmo com a redução da jornada semanal, adotando escalas que concentram menos funcionários nos dias de menor movimento, como terças e quartas-feiras, garantindo dias livres nesses períodos específicos, sem necessidade de fechamento dos estabelecimentos.

 

“Se vê que tem menos fluxo de clientes nas terças e quartas, então dá mais dias livres aos trabalhadores naqueles dias de menor movimento. Ficam menos trabalhadores na loja, mas a loja fica aberta.”

 

O pesquisador destaca que empresas tendem a resistir à revisão da jornada de trabalho, mesmo diante dos benefícios potenciais. Segundo ele, muitas organizações só consideram tais mudanças após a aprovação de leis, sem avaliar previamente os ganhos que poderiam obter.

 

Impacto no Produto Interno Bruto

 

Pedro Gomes discorda de estudos que preveem queda no Produto Interno Bruto brasileiro caso seja aprovado o fim da escala 6x1 e a redução da jornada. Ele analisou 250 episódios de redução da carga horária por via legislativa em diferentes países desde 1910. Nesses casos, a taxa média de crescimento do PIB subiu de 3,2% para 3,9% nos cinco anos seguintes à reforma, efeito atribuído por ele ao aumento da produtividade por hora, que compensou a redução do tempo trabalhado, além de outros impactos macroeconômicos.

 

O economista também aponta o longo tempo gasto pelos trabalhadores brasileiros no deslocamento até o trabalho como mais um motivo para diminuir a jornada semanal no país. Ele conclui:

 

“É uma razão adicional. Os trabalhadores vão melhorar muito a qualidade de vida, vão valorizar muito, e os custos para as empresas são muito mais baixos do que eles costumam argumentar.”

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