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Filmes do Brasil e Paraguai disputam prêmio ao abordar desafios democráticos

Produções de Petra Costa e Juanjo Pereira debatem papel da religião e da mídia em regimes do Brasil e Paraguai

02/05/2026 às 14:32
Por: Redação

Dois documentários que exploram a democracia latino-americana estão entre os finalistas da 13ª edição do Prêmio Platino, dedicada ao cinema ibero-americano, com o anúncio dos vencedores marcado para o próximo sábado, no México.

 

A produção brasileira "Apocalipse nos Trópicos", dirigida por Petra Costa, examina a influência de lideranças evangélicas no cenário político nacional. O longa acompanha os acontecimentos que marcaram o Brasil entre 2018 e 2022, incluindo a ascensão e a queda do governo Jair Bolsonaro e a tentativa frustrada de golpe em janeiro de 2023. O documentário também destaca o aumento do número de evangélicos no país, investigando de que forma a participação desse grupo impactou decisões políticas durante o período. Petra Costa, que já foi indicada ao Emmy Awards por sua direção em documentário, conduz a narrativa e investiga o papel dos líderes religiosos no direcionamento dos rumos do Brasil.

 

Já a obra paraguaia "Sob as bandeiras, o Sol", de Juanjo Pereira, volta-se para o regime ditatorial vigente no Paraguai entre 1954 e 1989, comandado por Alfredo Stroessner. Este documentário, que recebeu o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim de 2025, utiliza imagens raras, filmes de propaganda estatal e cinejornais, já que parte do acervo visual paraguaio foi destruída para apagar evidências dos crimes cometidos na ditadura. O longa traça um panorama dos 35 anos do regime, apontando que, segundo a Comissão da Verdade e Justiça do país, ao menos 20 mil pessoas foram vítimas, com 420 mortos ou desaparecidos.

 

Controle sobre mídia e legado histórico

 

O documentário de Pereira não inclui entrevistas ou narrações, utilizando exclusivamente materiais audiovisuais históricos para abordar o papel dos veículos de comunicação na sustentação da ditadura. De acordo com Paulo Renato da Silva, professor de História na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) e especialista no tema, o domínio dos meios de comunicação foi decisivo para a propaganda governamental, censura a críticas e construção de consenso durante o regime.

 

“Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado”, avaliou o professor. “No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’”, citou o pesquisador.

 

O documentário também ressalta como essas imagens oficiais influenciaram a formação da identidade nacional paraguaia, além de reconstruir momentos da história recente do país.

 

Relações políticas e parcerias internacionais

 

Outro aspecto retratado pela produção paraguaia diz respeito à participação na Operação Condor, ação conjunta de regimes autoritários latino-americanos, incluindo o Brasil, para perseguição de opositores e troca de prisioneiros, com apoio dos Estados Unidos. Ainda segundo Paulo Renato da Silva, a colaboração entre os governos envolveu, além da repressão política, parcerias em grandes empreendimentos, como a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, em termos considerados desfavoráveis ao Paraguai. Para o professor, esse tipo de aliança serviu para "vender a falsa imagem de um país que estaria se desenvolvendo, progredindo".

 

A obra também cita a ascendência alemã de Alfredo Stroessner e sua ligação com criminosos nazistas abrigados no país, entre eles Josef Mengele, conhecido por seus experimentos médicos durante o regime nazista.

 

Cenário político atual no Paraguai

 

O Partido Colorado, que governa o Paraguai desde 1947, permaneceu no poder durante quase todo o período, tendo sido afastado apenas uma vez, em 2008, quando o ex-bispo Fernando Lugo foi eleito presidente. Contudo, após um processo político conturbado, Lugo foi destituído e o partido retornou ao comando do país.

 

Outros indicados na premiação

 

Entre os concorrentes ao título de melhor documentário na premiação ibero-americana estão ainda "Tardes de Solidão", uma coprodução entre Espanha e Portugal dirigida por Albert Serra, que conquistou o prêmio Goya, e "Flores para Antônio", de Elena Molina e Isaki Lacuesta. O documentário "Tardes de Solidão" acompanha o toureiro peruano Andrés Roca Rey em sua trajetória marcada por desafios enfrentados por ambientalistas e pelo próprio protagonista, levando ao público cenas intensas de touradas, incluindo sangue, batalhas e vitórias. Já "Flores para Antônio" narra a busca de Alba Flores, atriz espanhola conhecida pela série "Casa de Papel", pelo entendimento da vida de seu pai, o cantor e compositor Antonio Flores, falecido quando ela tinha apenas oito anos. O filme mostra a artista conduzindo uma imersão pessoal na memória familiar.

 

Ambos os documentários abordam vivências íntimas, ampliando o leque de temas e estilos presentes entre os indicados ao Prêmio Platino deste ano.

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