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Orquestra feminina carioca Chiquinha Gonzaga inicia turnê histórica na Itália

Grupo de 52 jovens instrumentistas, estudantes de escolas públicas do Rio, fará apresentações e terá audiência com o Papa Leão XIV.

23/04/2026 às 15:14
Por: Redação

A Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, formada por jovens instrumentistas de 13 a 21 anos, todas estudantes da rede pública do Rio de Janeiro, embarca nesta sexta-feira (24) para uma turnê na Itália. Criada em 2021, a iniciativa busca ampliar a representatividade feminina na música erudita.

 

O nome da orquestra, uma formação composta por 52 musicistas exclusivamente mulheres, homenageia Chiquinha Gonzaga, a primeira maestra do Brasil. A escolha simboliza uma “herança de luta, liberdade e protagonismo feminino”, como destacado pela direção do projeto.

 

“Foi uma escolha muito consciente e carregada de significado. Chiquinha foi uma mulher à frente do seu tempo, que rompeu barreiras em uma sociedade extremamente restritiva para as mulheres. Ela foi compositora, maestra, ativista, uma mulher que lutou por autonomia e liberdade.”

 

A afirmação foi feita pela diretora executiva da Orquestra, a pianista Moana Martins, em mensagem enviada à Agência Brasil via WhatsApp. Ela complementou que, ao evocar o nome de Chiquinha Gonzaga, a intenção é conectar as jovens à sua inspiração de coragem e realização, reforçando a mensagem de que “vocês também podem transformar a história”.

 

A orquestra comemorará cinco anos em 2026. A flautista Nathaly Joyce, de 21 anos, residente em Tomás Coelho, na zona norte do Rio, faz parte do projeto há cinco anos, tendo ingressado após ser aprovada em uma audição. Nathaly descreveu a sensação durante as apresentações como “quase um filme na sua cabeça”.

 

“Desde de quando a gente tinha dificuldade em uma música e por conta de estudos e motivação, não só de professores e maestros, mas da própria orquestra, a gente ali se apoiando. É lindo ver o companheirismo e a aliança através da música.”

 

A instrumentista expressou à Agência Brasil sentir-se “sortuda e privilegiada” pelo apoio integral de sua família em sua jornada musical, que hoje segue como profissão. Nathaly planeja se formar na faculdade de música e futuramente continuar na área, explorando regência e buscando mestrado e doutorado.

 

Agenda na Europa

 

A agenda da orquestra na Itália, parte da turnê “Conexão Vaticano”, estende-se de 23 de abril a 1º de maio. O ponto alto da programação será uma audiência com o Papa Leão XIV, agendada para o dia 29 de abril, na Praça São Pedro, no Vaticano. A turnê faz parte das celebrações do Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé.

 

As “Chiquinhas”, como são carinhosamente chamadas, participarão de intercâmbios acadêmicos com renomadas instituições de música europeias, incluindo a Sapienza Università di Roma e a Accademia de Santa Cecilia. Estão previstas apresentações no Cinema Troisi, na Sapienza Università di Roma e na Embaixada do Brasil em Roma, onde participarão do encerramento de uma mostra audiovisual de cinema brasileiro, também integrante das comemorações do Bicentenário.

 

A violinista Clarysse Amaral, de 21 anos, moradora de São Cristóvão, zona norte do Rio, descreveu a oportunidade de se apresentar ao Papa como “inexplicável” e “um feito histórico”. Em áudio enviado à Agência Brasil via WhatsApp, Clarysse também destacou o apoio familiar em sua carreira, afirmando: “Graças a Deus estão sempre comigo e muito felizes com as minhas conquistas tanto na Chiquinha como na música em si. Sou muito grata a eles”.

 

O repertório dos concertos inclui homenagens a grandes nomes da música brasileira, como Carlos Gomes, Guerra-Peixe, Baden Powell, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque. A cantora Flor Gil, neta de Gilberto Gil, fará uma participação especial nas apresentações.

 

O programa também apresentará uma obra inédita da compositora brasileira Ágatha Lima, que reside na Itália e venceu uma chamada pública promovida pelo projeto. A regência da orquestra, que normalmente seria de Priscila Bomfim, ficará a cargo de Ludhymila Bruzzi durante a turnê, devido à impossibilidade de viagem de Priscila.

 

Ludhymila Bruzzi descreveu a experiência de trabalhar com as jovens da OSJ Chiquinha Gonzaga como uma alegria e um aprendizado que transcende a música.

 

“É sobre criar laços, cultivar a confiança, e principalmente a autoconfiança delas em relação ao ofício de ser musicista, em um meio ainda tão dominado pelos homens.”

 

A maestrina enfatizou que o fato de a orquestra ser composta apenas por meninas e mulheres impulsiona uma mudança mais rápida e presente no cenário musical. Ela observa um forte senso de união e representatividade entre as integrantes, o que lhes dá a certeza de que “podem e devem estar ali e em qualquer outro grupo ou palco pelo mundo”.

 

A turnê “Conexão Vaticano” conta com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da Embaixada do Brasil junto à Santa Sé, da Embaixada do Brasil em Roma e do Instituto Guimarães Rosa. O patrocínio é da Zurich Santander, viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura. A Petrogal Brasil, uma Joint Venture Galp|Sinopec, atua como patrocinadora master da Orquestra, apoiando seu desenvolvimento anual também por meio da mesma legislação.

 

Esta é a sexta turnê internacional da OSJ Chiquinha Gonzaga. Em 2025, o grupo se apresentou no Carnegie Hall, em Nova York, nos Estados Unidos, e no Festival Nos Alive, em Oeiras, Portugal, com a participação de Flor Gil. Em 2024, a orquestra esteve em Bordeaux, na França, e em 2023, visitou cidades da Suíça. No ano anterior, as jovens instrumentistas estiveram em Portugal e Espanha. Dentre as 52 integrantes da orquestra, 27 participam desta viagem para a turnê “Conexão Vaticano”.

 

Impacto Social do Projeto

 

Manter um projeto como a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, segundo a diretora executiva Moana Martins, representa um desafio considerável, visto que se trata de um vasto ecossistema social que abrange desde os polos de formação até as ações de desenvolvimento profissional. Contudo, ela ressalta que “o propósito” é o que impulsiona a continuidade do trabalho com firmeza.

 

“Sou muito feliz por acompanhar o crescimento de cada Chiquinha. Elas começam ainda tímidas, encontrando o seu som e não demora muito, a transformação acontece. As meninas vão ocupando seus espaços nos teatros, nas universidades, protagonizando histórias lindas e realizando seus sonhos e de suas famílias.”

 

Moana Martins também destacou o impacto tangível do projeto nas famílias e nas comunidades. Ela observa mudanças significativas no desempenho escolar das alunas, em seu comportamento e na maneira como se posicionam no mundo. A diretora explicou que as jovens se tornam modelos em seus lares, inspirando irmãos, fortalecendo os laços familiares e criando novas oportunidades em contextos frequentemente marcados por limitações de acesso. Nesse sentido, a orquestra atua como um “vetor de mobilidade social e também de transformação simbólica que amplia horizontes”.

 

“No fim das contas, o que sustenta a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga é o sentido.”

 

Para celebrar seus cinco anos de existência, a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga lançou um selo comemorativo. Este selo simboliza não apenas o aniversário, mas também a trajetória construída com dedicação, formação artística e impacto social. O programa da OSJ Chiquinha Gonzaga é reconhecido pelo seu rigor acadêmico, sendo que apenas as alunas com os melhores resultados escolares são selecionadas para participar dos intercâmbios internacionais.

 

Conforme o Relatório de Impacto 2025 da orquestra, essa política resulta em um desempenho 96,6% superior em comparação com a média dos estudantes da rede estadual do Rio de Janeiro. Além dos resultados acadêmicos, o projeto também ressaltou a profunda transformação na mentalidade das alunas, muitas das quais são as primeiras em suas famílias a ingressar na universidade e a desenvolver projetos de vida mais ambiciosos e sustentáveis, evidenciando o poder transformador da música.

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