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Artesãos transformam monumentos de Brasília em miniaturas e recontam histórias

Miniaturas artesanais de monumentos de Brasília mantêm viva a memória e inspiram novas histórias entre famílias de artesãos

21/04/2026 às 14:36
Por: Redação

O artesão Agnaldo Noleto, de 56 anos, inicia sua jornada diária ainda de madrugada, acordando às 3h para começar a produzir miniaturas de monumentos brasilienses a partir das 4h, em sua oficina localizada em Santo Antônio do Descoberto, em Goiás. Utilizando resina, madeira e tinta, ele dá forma reduzida a ícones arquitetônicos situados a mais de 50 quilômetros de distância, na capital federal, por quem desenvolveu grande afeto.

 

No aniversário de 66 anos de Brasília, comemorado nesta terça-feira, dia 21, Agnaldo relata que a cidade cabe em suas mãos enquanto projeta, esculpe, lixa e pinta cada peça, atividade que povoa também sua mente.

 

Semanalmente, Agnaldo produz ao menos 850 miniaturas que são comercializadas em feiras espalhadas pela cidade. Esses trabalhos tornam-se souvenires adquiridos tanto por visitantes quanto por habitantes locais. Cada réplica, apesar de pequena, carrega grande significado para o artesão, sendo a Catedral de Brasília sua maior fonte de inspiração, seja pela edificação vista atualmente ou pelas cores que marcam suas mãos no início de cada manhã.

 

A trajetória de Agnaldo remonta à adolescência, quando, aos 14 anos, começou a trabalhar vigiando carros no estacionamento da igreja. Nascido em Riachão, Maranhão, mudou-se para Brasília em 1980 com a irmã, época em que a cidade tinha apenas 20 anos. Seus pais permaneceram no Maranhão.

 

“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista”.

 

Durante a infância e adolescência, Agnaldo fabricava carrinhos de madeira e objetos de argila, mas só mais tarde passou a depender financeiramente das miniaturas. Com incentivo de guias de turismo, aventurou-se na fotografia instantânea, mas foi após a descoberta da pedra-sabão, mais tarde proibida devido ao amianto, que sua carreira como artesão foi consolidada, agora utilizando resina. Aprendeu a unir as partes das peças e a oferecer os itens, sempre com sorriso, perguntando: “uma lembrancinha hoje?”

 

“A lembrancinha é uma força em Brasília inteira. Eu sempre gostei do artesanato. Sempre gostei de cultura. O artesanato é a minha cultura”, exalta.

 

A primeira miniatura criada por Agnaldo homenageou a escultura Os Candangos, obra de Bruno Giorgi datada de 1959 que possui oito metros de altura e está localizada na Praça dos Três Poderes. Em sua versão, a peça mede apenas alguns centímetros, mas representa memórias da própria história, da irmã e de outros migrantes nordestinos que buscaram oportunidades na nova capital.

 

Outro marco de sua produção é a Catedral de Brasília, projetada com curvas por Oscar Niemeyer. Sobre a complexidade dessas réplicas, ele afirma:

 

“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige”, acredita.

 

Agnaldo confecciona cada item individualmente até alcançar o padrão de qualidade para venda, critério que garantiu o sustento de seus seis filhos, todos nascidos em Brasília. Sua rotina é intensa: de segunda a sexta-feira, inicia os trabalhos pela manhã e muitas vezes segue durante a noite. Nos fins de semana, monta sua barraca em frente à Catedral, permanecendo no local das 8h até as 18h, ou até que não haja mais turistas circulando.

 

Tradição familiar no comércio de miniaturas

 

No decorrer da semana, Agnaldo cede o ponto em frente à Catedral para outra família de nordestinos, que comercializa as miniaturas produzidas por ele. Entre os responsáveis está Nariane Rocha, maranhense de 44 anos, que assumiu o negócio após a morte do marido, Marcelino, aos 64 anos, vítima de câncer no final do ano passado. Para dar continuidade à atividade, ela convidou a nora para atuar ao seu lado.

 

“Foi muito triste voltar a trabalhar sem ele. Ficamos por 10 anos aqui. Chamei minha nora para me ajudar”.

 

Michele Lima, nora de Nariane e potiguar de 42 anos, expressa encantamento pela cidade:

 

“Aqui, eu me sinto segura. Penso em viver aqui sempre”.

 

Ambas residem na cidade de Novo Gama, localizada a mais de 40 quilômetros da Catedral. Nutrem o desejo de abrir uma loja própria, o que eliminaria a exposição ao tempo e a necessidade de proteger as peças com plástico durante as chuvas e transportar todos os produtos para o carro após cada dia de trabalho. Paralelamente, planejam construir uma casa.

 

Outra meta compartilhada por sogra e nora é voltar a estudar, com o objetivo de cursar psicologia. Michele comenta:

 

“A gente é comerciante, mas adora conversar e entender as pessoas”.

 

Convivência e trabalho coletivo na praça

 

O entorno da praça da Catedral reúne diversas barracas de artesãos que compartilham o espaço informalmente. Alberto Correia, comerciante de 57 anos nascido em Paranã, Tocantins, e morador de Itapoã, região administrativa periférica do Distrito Federal, relembra que começou a produzir suas primeiras peças diretamente no chão em frente à Catedral.

 

Já Rodrigo Gomes, natural de Anápolis, Goiás, de 41 anos, deixou a profissão de mototaxista para reproduzir, em miniatura, a arquitetura da capital. Entre suas criações, destaca-se a reunião de diversos monumentos sobre a base do mapa do Brasil, peça batizada como “Mapa Candango”.

 

“Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas”.

 

Na barraca ao lado, Tânia Bispo, de 58 anos, soteropolitana residente no Gama, também comercializa miniaturas. Ela iniciou sua trajetória vendendo água de coco. Atualmente, essa tarefa é desempenhada pelo marido, que trabalha do outro lado da praça, e ao longo do dia ambos trocam acenos. Com a renda das barracas, o casal criou os quatro filhos.

 

Morando há três décadas em Brasília, Tânia se considera parte fundamental da construção da cidade:

 

“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande”.

 

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