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Pesquisadores rastreiam origem das tartarugas de Arraial do Cabo

Projeto coleta dados genéticos e comportamentais para identificar procedência e promover preservação das espécies marinhas.

21/04/2026 às 16:22
Por: Redação

Na Praia do Pontal, dentro da Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, mergulhadores partiram em caiaques em direção ao mar em um dia de céu limpo e águas tranquilas. Aproximando-se cerca de 200 metros da faixa de areia, um mergulhador submergiu, retornando pouco depois trazia uma tartaruga marinha. A mesma operação foi realizada novamente, com a captura de outro animal.

 

A cena, que atraiu a atenção de pescadores e banhistas, não tinha caráter predatório. A iniciativa integra o Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental, e tem como propósito monitorar a saúde das tartarugas marinhas da região. O projeto visa coletar evidências científicas para apoiar a preservação e a recuperação dos costões rochosos, áreas que fazem a transição entre o mar e o continente.

 

Com o apoio da Petrobras, o projeto busca elucidar a procedência das tartarugas que habitam o litoral de Arraial do Cabo, considerado o local de maior concentração de tartarugas-verdes em áreas de alimentação ao longo da costa brasileira. Segundo Juliana Fonseca, uma das fundadoras da iniciativa e bióloga, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil também aparecem em Arraial.

 

Exames detalhados para mapear a origem

Após serem capturadas na água, as tartarugas são encaminhadas para a areia, onde são submetidas a uma série de procedimentos. "A gente faz uma bateria de exames, que consiste em pesar, medir e coleta de tecido. É como se a gente estivesse fazendo uma biópsia para entender a origem dela", explicou Juliana.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.

 

O objetivo é identificar de onde vêm esses animais e, com isso, compreender quais estoques populacionais dependem daquela região. Identificando suas origens, é possível entender melhor as conexões entre áreas de desova e zonas de alimentação.

 

De acordo com Juliana Fonseca, as tartarugas marinhas possuem uma expectativa de vida em torno de 75 anos. Elas podem passar cerca de dez anos nas águas de Arraial do Cabo e, em alguns casos, permanecem até 25 anos antes de regressar ao local de nascimento para reprodução. Os animais chegam ainda pequenos ao litoral fluminense, onde se desenvolvem.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.

 

Monitoramento, identificação e análise de DNA

O acompanhamento da saúde das tartarugas-verdes e tartarugas-pente é realizado em três praias da reserva marinha de Arraial do Cabo: Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal, além da Ilha de Cabo Frio. Durante esses procedimentos, são aferidos casco, nadadeiras, rabo e até as unhas dos animais.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.

 

Para identificação dos indivíduos, os pesquisadores utilizam fotografias e softwares específicos. O reconhecimento se dá pelo padrão de placas na cabeça das tartarugas, que funciona como uma impressão digital.

 

Desde 2018, cerca de 500 tartarugas já foram catalogadas na região. Destas, 80 passaram pela coleta de DNA, procedimento feito em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF). Os resultados das análises genéticas são aguardados para um prazo de até seis meses.

 

Convívio humano e impacto no comportamento

Outra linha de pesquisa do Projeto Costão Rochoso procura determinar a distância mínima de tolerância das tartarugas em relação à aproximação humana.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.

 

O método utilizado consiste em aproximações simuladas para observar o momento em que o animal altera seu comportamento, permitindo calcular a distância média de tolerância. Com base nesses dados, será confeccionada uma cartilha de boas práticas para observação das tartarugas, voltada ao turismo em Arraial do Cabo e também para aplicação em outras regiões do Brasil e do exterior.

 

Durante a pesagem, medição e coleta de tecido, não é incomum que banhistas, inclusive crianças, se aproximem e questionem sobre o estado de saúde dos animais. Diante dessas situações, os membros do projeto explicam aos presentes o caráter de conservação da atividade. Uma placa instalada próxima ao local dos procedimentos indica explicitamente: “Proibido tocar nos animais marinhos”.

 

Exigências para captura e autorizações necessárias

Isabella Ferreira, bióloga e pesquisadora do projeto, esclarece que a captura das tartarugas só pode ser realizada por pessoas formadas em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia. Além da formação adequada, é indispensável obter autorizações do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, reconhecido internacionalmente por ações de conservação marinha desde sua fundação em 1980.

 

"Nós pedimos autorização para tudo que a gente faz aqui, da captura, marcação, foto. Todas as vezes que a gente vem para cá, a gente notifica os guardas ambientais e mostra a nossa autorização", relatou Isabella.

 

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