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Família brasileira morre em bombardeio enquanto recolhia pertences no Líbano

Ataque destruiu a casa em Bint Jbel e matou três brasileiros; sobrevivente ficou ferido

28/04/2026 às 23:27
Por: Redação

A casa de uma família brasileira-libanesa foi destruída por um ataque de Israel na cidade de Bint Jbel, localizada no Sul do Líbano, enquanto buscavam roupas e objetos pessoais no imóvel. Até o momento, os corpos das vítimas não foram localizados nos destroços, pois a estrutura ficou totalmente arrasada após o bombardeio.

 

No ataque perderam a vida Manal Jaafar, cidadã brasileira de 47 anos; seu filho Ali Ghassan Nader, de 11 anos; e o patriarca da família, o libanês Ghassan Nader, de 57 anos. A família havia deixado a residência no início da fase atual do conflito, em 2 de março, e buscou refúgio em Beirute, capital libanesa.

 

Após o anúncio do cessar-fogo em 16 de abril, eles decidiram retornar temporariamente a Bint Jbel para recolher mais roupas e outros bens. O plano era retornar a Beirute logo em seguida. A chegada ao Sul do Líbano aconteceu no sábado, 25 de abril.

 

Bilal Nader, irmão mais novo de Ghassan e também brasileiro-libanês de 43 anos radicado em Foz do Iguaçu (PR), relatou que Ghassan pretendia voltar no mesmo dia, mas acabou pernoitando no local e pretendia retornar no domingo, 26 de abril, momento em que ocorreu o ataque.

 

Segundo Bilal, o irmão aguardou cerca de sete ou oito dias após o cessar-fogo antes de ir à antiga residência. Ele afirmou que Ghassan só pretendia juntar alguns pertences e retornar. O carro já estava ligado, com o porta-malas carregado, pronto para a viagem de volta.

 

Durante o bombardeio, Kassam Nader, filho do casal com 21 anos e estudante de computação no Líbano, ficou ferido, recebeu atendimento hospitalar e teve alta na terça-feira, dia 28. O casal tinha ainda outros dois filhos, com 28 e 26 anos, que residem e trabalham fora do país.

 

Bilal Nader destacou que seu irmão levava uma vida dedicada à agricultura de oliveiras no Sul do Líbano, não possuía nenhuma ligação com partidos políticos e alimentava a esperança de que a guerra terminasse.

 

“Meu irmão é uma pessoa de bem, não tem ligação com nada, não apoia nenhum partido, é uma pessoa bem reservada, bem sossegada. Inclusive, ele tem muitos amigos aqui, em Foz [do Iguaçu], no Brasil inteiro. Tem amigos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, São Paulo. Ele era bem conhecido aqui”, declarou Bilal.


 

Ele também explicou que a área onde a família morava não era palco de confrontos recentes e era composta apenas por edificações civis e população local.

 

“As cidades mais para frente é onde estavam acontecendo os bombardeios, onde estão roubando as casas. Ao redor da casa dele não tinha nada, só construções civis, com população civil normal”, detalhou Bilal Nader.


 

A Embaixada de Israel no Brasil foi procurada para se manifestar sobre o ataque à casa da família brasileira, mas não respondeu até o encerramento da matéria.

 

De acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores, o Líbano abriga a maior comunidade brasileira do Oriente Médio, contando com 22 mil residentes em 2023. O governo brasileiro repudiou oficialmente os ataques cometidos durante o período do cessar-fogo.

 

Raízes familiares e trajetória no Brasil

 

A família que foi vítima do bombardeio viveu no Brasil, especificamente no Paraná, durante mais de quinze anos, entre 1995 e 2008. Manal Jaafar, esposa de Ghassan, obteve a nacionalidade brasileira e teve filhos no país. Ghassan, por sua vez, era comerciante do setor de eletroeletrônicos e não chegou a solicitar a cidadania brasileira devido à falta de tempo, em função do trabalho.

 

O jornalista libanês-brasileiro Ali Farhat, amigo de Ghassan, afirmou que ele era uma pessoa culta e ativa na comunidade libanesa no Brasil. Graduado em economia, Ghassan chegou a escrever um livro em árabe sobre economia mundial.

 

“Ele era muito ativo na comunidade libanesa aqui no Brasil. Ele trabalhava como empresário aqui e também como intelectual. Ele estava tentando fazer alguns estudos, algumas pesquisas e depois ele decidiu viajar para o Líbano para viver com a família dele lá”, relatou Farhat.


 

Cessar-fogo e novos ataques

 

Apesar do anúncio de um cessar-fogo no Líbano, a trégua foi reiteradamente descumprida por Israel, segundo relatos. O grupo Hezbollah, organização político-militar xiita, comunicou que irá responder a quaisquer violações da trégua, enquanto o Irã defende que o cessar-fogo na região inclua também o Líbano.

 

Conforme informações divulgadas pela Casa Branca, Israel estaria autorizado a agir militarmente contra o Hezbollah apenas em situações de legítima defesa, seja em resposta a ataques planejados, iminentes ou ocorrendo no momento.

 

Avanço militar israelense no Sul do Líbano

 

O governo de Israel tem manifestado intenção de ocupar toda a área ao sul do país até o Rio Litani, cerca de 30 quilômetros além da fronteira atual, declarando que não permitirá o retorno da população civil à região. O último dia de ataques antes do cessar-fogo foi marcado pelo bombardeio da Ponte de Qasmiyeh, a única que restava sobre o Rio Litani, o que isolou a parte sul do país e interrompeu o acesso entre as cidades de Tiro e Sidon.

 

Segundo o especialista em geopolítica Anwar Assi, as ações militares israelenses no Sul do Líbano caracterizam, de acordo com ele, uma limpeza étnica, com o objetivo de expulsar a população local e tomar os territórios.

 

“O objetivo principal da guerra é a expulsão das pessoas do Sul do Líbano. Por isso que eles destruíram escolas, hospitais, prédios do governo e todas as unidades que poderiam dar suporte ao retorno dos civis. Eles destruíram justamente para que essas pessoas que retornassem às suas cidades não encontrassem nenhum tipo de apoio”, afirmou Assi.


 

Por outro lado, Israel sustenta que as operações militares visam criar uma zona de segurança para prevenir ataques do Hezbollah.

 

Conflito entre Israel e Hezbollah: histórico e contexto

 

A fase atual da guerra entre Israel e Líbano teve início em outubro de 2023, quando o Hezbollah passou a atacar regiões do Norte de Israel em apoio ao povo palestino, em reação aos eventos na Faixa de Gaza. Em novembro de 2024, foi estabelecido um acordo de cessar-fogo entre o grupo libanês e o governo de Tel Aviv, porém, segundo relatos, Israel não interrompeu os ataques no território libanês.

 

Quando houve o agravamento das tensões com o Irã, o Hezbollah reagiu com novos ataques a Israel em 2 de março, em resposta às repetidas violações do cessar-fogo nos meses anteriores e também como retaliação à morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.

 

No dia 8 de abril, foi divulgado novo acordo de cessar-fogo referente ao conflito no Irã, mas os bombardeios israelenses no Líbano continuaram, contrariando o entendimento negociado pelo Paquistão.

 

O histórico de confrontos entre Israel e Hezbollah remonta à década de 1980, quando a milícia xiita foi formada como reação à invasão e ocupação israelense do Líbano, principalmente devido à presença de grupos palestinos refugiados no país. Em 2000, o Hezbollah conseguiu forçar a retirada das tropas israelenses do território libanês. Desde então, o grupo também se consolidou como partido político, com representação no Parlamento e participação nos governos do Líbano. O país foi novamente alvo de ofensivas de Israel nos anos de 2006, 2009 e 2011.

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